Infância

Quando dei por mim Os pedaços que eram meus Voltaram com a primavera Que florescia No caminho Que semeaste. Quando dei por mim A minha infância voltou Naquele baloiço Em que andaste Naquele baloiço Que me encantou Naquele baloiço Que foi Naquele baloiço Que voltou Naquele baloiço Que te conhecia Mas só agora me contou […]

A inveja é tão certa como a admiração

A inveja é tão certa como a admiração.São até irmãs!Uma nasce da outra,Embora siga um caminho mais tortuoso. Tenho pena dos invejosos,Tenho pena de mim quando invejo.Não por admirar,Mas por não aceitarA grandeza dos outros face à minha pequenez. E, embora inveje,Reconheço-me,Ou penso reconhecer-me…E é nesse reconhecimentoQue, em parte, me libertoE começo a admirar só.E […]

Um p e um ai – Pai

Era muito, muito menina e eis que chegava o dia do pai. A minha educadora punha-me a fazer uma prenda para o dia do pai. Eu chorava e ela telefonava à minha mãe. Não havia nada a fazer. Ela abria os braços e eu agarrava-me para não me despenhar no abismo da revolta.O que é […]

O amor é uma papoila rubra.

Colhida ao acaso  Entre a erva seca da planície, A papoila está Ansiosa da ternura dos amados. Subsiste se lhe dão água urgente E cristalina… Por algum tempo, só. Não resiste ao desamor  das mãos que a colhem. Mas, mesmo breve, Eterniza-se nas carícias Das mãos que a cuidam.

D´amor e dor

Já não se escrevem cartas. A raridade das cartas de amor e de dor torna-as preciosas.

Recomeçar

Nas nossas mãos desmãozadas há uma mixórdia de carne e chips, articulações e telas OLED e memórias RAM. Onde termina o telemóvel e onde começam as mão? Já não interessa porque é nessas desmãos que registamos, guardamos e arquivamos os meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos desse tiq-tac-tic-tac de 2022 cada vez mais esfumado.

Outonar

Eis nos prestes a virar a folha. Foi um pulo e cá estamos. Mês 11. Vamos outonando. Engordámos a velha despensa e afogámos a adega já vazia.

APRENDER

Eu queria o mar. A água gelada era sempre uma delícia, a bandeira parecia-me sempre verde e os lábios roxos ou os dentes a bater de frio só existiam na preocupação dos adultos. Era do melhor!

Entrelaçar

Rio-me e balanço-me ainda mais. Os pés descalços. A brisa da manhã e o cheiro fresco dos limoeiros parecem-me eternos. Sei que amanhã a minha avó voltará ao tanque para se pentear e eu poderei continuar a estudar as lições das férias de verão. Gosto particularmente das aulas de entrelaçar 

ESPERAR

Poderias afastar-me. Deixar-me só em algum lugar sem regresso mas a minha capacidade de esperar levar-me ia até ti. Ficaria à janela como roupa que seca ao vento e ao sol e nada me assustaria, nada me faria recear porque tu voltarias sempre e eu a ti regressaria para ficar. Ficar contigo. A esperar.