A minha avó é lindíssima. Uma mulher pequenina mas tão elegante que me parece uma modelo, uma atriz de cinema famosa. Espio-a em silêncio.

A escola acabou. Estou no quintal da casa de S. Victor. Balanço na rede gasta, presa aos velhos limoeiros floridos. Teimo em obrigar a gata negrita a permanecer deitada na minha barriga enquanto a contemplo. 

Magra. Mãos delgadas mas musculadas do ritmo da vida corrida. Solta os cabelos que lhe tombam até à cintura. Retira cuidadosamente os ganchos e as travessas que lhe conheço desde sempre. 

Junto ao tanque de pedra, com a água a correr, vai desembaraçado o cabelo delicado. Graciosamente, os seus braços delgados desenham no ar arabescos de bailarina. Os dedos ossudos e ágeis entrançam os fios de linho do seu cabelo prateado. 

É uma deusa. Invejo aquele cabelo sem ameaças de tesouras de cabeleireiras. 

A gata negrita bufa-me furiosa e foge ao meu abraço. 

Acordo do encanto. A minha avó chama-me. Repreende-me — esta miúda não tem remédio! Larga a gata! Ainda te fura a vista!

Rio-me e balanço-me ainda mais. Os pés descalços. A brisa da manhã e o cheiro fresco dos limoeiros parecem-me eternos. Sei que amanhã a minha avó voltará ao tanque para se pentear e eu poderei continuar a estudar as lições das férias de verão. Gosto particularmente das aulas de entrelaçar 

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