Nunca fui um bicho obediente. As regras fazem-me urticária de varicela. A anarquia é algo que não proclamo mas os sinais de trânsito, as proibições e as leis são companheiros de trato difícil.

Não cozinho por receita. Não escrevo ciência. O rigor sufoca-me. 

Há em mim algo de indomável. Como uma birra. Não por capricho mas por incapacidade de acatar.

Quando olho para trás vejo-me como uma alma irrecuperável. 

Invejo a aceitação pachorrenta e a capacidade de dizer – sim senhora- faço como me pede! 

Questiono. Recuso. Resisto.

Almejo a arte de aceitar. Seria perfeito conseguir fluir.

Como seria leve e etérea a minha vida. Creio que flutuaria no ar como um dente de leão e, por certo, os meus lábios seriam um eterno sorriso feliz.

Mas ainda não morri.

Respiro. Corro. Estico-me.

Reduzo-me à minha insignificância. Não consigo.

Permanece em mim a selvajaria. 

Os anos que carrego não conseguiram amestrar esse bicho irrequieto. Continuo atacada de “bichos carpinteiros”. Pára, senta. sossega são palavras que me enlouquecem. Engulo-as para agradar aos crescidos e finjo que as mastigo. Na verdade, cuspo e escondo no guardanapo. 

Não. Não vou sossegar. Não vou obedecer.

Perdoem-me a franqueza. Desculpem-me a loucura.

Não nasci para concordar. Enquanto existir irei abanar todos os portões. Irei ignorar todos os letreiros. 

Enquanto respirar irei teimar. Teimar muito para que me aceitem assim. Eternamente teimosa. Eternamente criança.

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